Terça-feira, 19 de setembro de 2017

Eduardo Lopes

Pipoca de Canjica
01/09/2017 às 10:17:13

O texto dessa semana não fala apenas de um produto e suas curiosidades, mas sim de um momento nostálgico, que é a minha época de colégio, seja no recreio (nos saquinhos rosas) ou na saída, onde tinha um tiozinho vendendo em um carrinho de madeira cor laranja. Só de lembrar eu já sinto o gosto daquela pipoca, que é totalmente diferente das que comemos no cinema e em casa, diferente não só na sua estrutura, mas também na textura e no gosto.

 

Para poder contar um pouco sobre essa pipoca, eu tinha que ir atrás de uma pessoa que tivesse conhecimento de causa e nada mais apropriado que conversar com um vendedor dessa iguaria. Foi aí que conheci Sr. José, vendedor de pipoca há 43 anos, que hoje fica religiosamente todos dias na Av. Francisco Porto, em frente ao Banco do Brasil, com seu carrinho laranja de madeira, cheio de pipocas.

 

Para ganhar a confiança, já fui pedindo duas pipocas, uma doce e uma salgada, afinal de contas fazia uns 20 anos que não comia e nada mais apropriado unir o útil ao agradável. Pipoca vai, pipoca vem, comecei a fazer umas perguntas para ele. E ali seria o momento ideal para eu coletar as informações que eu precisava.

 

A primeira pergunta foi: “que milho é utilizado para a produção dessa pipoca?” Ele me respondeu com sua voz rouca, que era feita de milho de mungunzá. Fiquei muito surpreso, pois apesar de ser bem conhecida, acredito que muita gente não sabe disso.

 

Outra pergunta foi se dava para fazer em casa. Ele olhou e disse: IMPOSSÍVEL !!! Aí eu disse: “Como assim? O senhor não faz as suas aqui no carrinho? Aqui tem uma panela e por sinal está aquecida. Por que eu não posso fazer em casa?”. Ele me respondeu que a panela é apenas para deixar as pipocas já prontas aquecidas e que ele compra essas pipocas de uma fábrica no Bairro Industrial.

 

Aí vem a terceira pergunta, cuja resposta é a mais impressionante, onde eu aposto que ninguém sabe disso. ”Mas então como ela é produzida?” É produzida em uma fábrica onde os milhos são colocados em canhões, que são de ferro maciço redondo, que depois de fechado é como se fosse uma panela de pressão. Por fora, esse canhão é aquecido por um maçarico chegando a 200°C, durante o aquecimento ele gira sem parar. Quando está pronto, um funcionário abre a tampa desse canhão e a pipoca sai como se fosse um projétil de arma de fogo, o milho se expande na mesma hora ficando muitas vezes maior que seu tamanho de origem. E aí aquele milho já sai no formato dessa pipoca.

 

Segundo Sr. José, a explosão é tão forte que chega a tremer as paredes da fábrica. Depois de transformado em pipoca, o milho passa por etapas de caramelização ou de salga. Aí depois de finalizado, ele pode ser ensacado nos famosos saquinhos rosa ou são vendidas para pessoas como o Sr. José. Existe até a “gurmetização” dessa pipoca, que é encontrada em empórios e lojas de produtos fits, muito consumida pelo público fit. 

 

 

 

Como todo produto cultural e regional, se não tomado seu devido cuidado, ele pode desaparecer e chegar a ser extinto, principalmente com a entrada de produtos importados. Eu não quero levantar a bandeira do “só coma produto da terra”, mas que precisamos preservar nossos produtos e nossa cultura, isso sim.

 

 

Até a próxima sexta-feira! 

 

Eduardo Lopes

É formado em Gastronomia, chef de cozinha do Quadro Gastronomia em Dia da TV Atalaia/Rede Record, empresário e chef de cozinha da Due Nutri/Alimento Inteligente, empresário da Senhora Pizza Home Rodizio, além de bacharel em Publicidade e Propaganda.